A casa respirava imponência. A porta branca abria-se e por trás dela, um hall quadrado dava as boas vindas a quem entrasse. Do lado direito, escadas em caracol até ao andar superior, corrimão em veludo encarnado. Enquanto se percorria o corredor, era inevitável reparar nas paredes repletas de quadros caros e de uns quantos candelabros. Na quarta porta à esquerda, sentado confortavelmente numa poltrona e de livro no colo, repousava o senhor da casa. Ao fundo, encostadas à parede de cal entre dez a quinze mulheres exibiam o seu corpo em lingerie. Algumas não disfarçavam o nervosismo de quem estava ali por diferentes razões, com diferentes objectivos.
Aquelas que se sentiam mais à vontade aproveitavam para provocar o senhor, piscando o olho de forma tentadora ou mordiscando o lábio. O Homem casou-se já quatro vezes mas não tinha herdeiros. Em conversas informais confessava que sentia que tinha nascido para aquilo, para singrar no complexo mundo da prostituição. Persuade raparigas de Leste, impingindo-lhes mentiras e promessas que nunca são cumpridas.
De volta à sala. Uma hora e vinte depois de terem entrado, mandou os seus seguranças acompanharem as mulheres à saída. Em fila, uma a uma saíam. Saíam todas menos a mulata que o tinha deixado curioso. Levantou-se, andou em círculo deixando-a indefesa no centro.
Disse: “Despe-te!”- ela sorriu matreira e desceu primeiro a alça esquerda do soutien, depois a segunda. Tirou-o e o homem admirou durante alguns segundos os seus mamilos. Levemente foi aproximando-se dele, passou a mão pelo corpo prestes a entrar em erupção e deixou-o em êxtase total. Então o Homem agarrou-a e tentou possuí-la. Preparado para lhe arrancar a parte de baixo da roupa interior, tocou o rabo da mulata que depressa se apressou a agarrar-lhe a mão e sussurrou-lhe ao ouvido: “Calma Charles, calma…”- empurrou-a e perguntou: “Como sabes tu o meu nome?”- sorriu da mesma forma de há momentos atrás e afirmou: “Conheço-te bem melhor do que és capaz de imaginar, querido. Nem sabes o quanto me esforcei para chegar aqui, para finalmente poder estar na tua presença. Achas mesmo que me ia envolver com um porco como tu se não tivesse um bom motivo?”- Charles começou a suar. Não estava a gostar de ouvir o que a mulata dizia. “Diz-me o teu nome, preta.”
“Abby Wayne. Tenho o mesmo apelido da mulher que violaste há mais de vinte anos. Que espancaste depois com medo que ela contasse a alguém. Essa mulher foi a mesma que me criou, que me aconchegava os lençóis antes de adormecer, que me beijava a testa todos os dias de manhã.” – Relembrou aquele momento, quando Margareth trabalhava para ele e numa noite fria em que tinha bebido a mais, a agarrou e a violou. Caiu em si e percebeu que tinha que a matar, não podia correr riscos. Tirou da gaveta uma Walter e com dois tiros, eliminou o perigo.
“Tenta compreender, eu errei mas ninguém podia saber de nada”- disse. Abby tirou da mala uma chave de fendas e saltou sobre ele. Prendeu-lhe o pescoço, cruzando as pernas e enquanto Charles se debatia e tentava libertar-se desferiu no pescoço gordo dele três golpes. Os braços deixaram de a tentar atingir. Deixou-o no chão, viu-o contorcer-se de dores e viu a sua alma abandonar o corpo dolorosamente. Não nega que sentiu um certo gozo. Tinha vingado a morte da sua mãe e nada, nem mesmo a consciência, a iam fazer sentir-se mal. Recolheu a arma do crime, e foi embora.
Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Diário do Norte de luto
26 de Agosto
Uma mulher de 25 anos foi encontrada morta nos arredores do Porto. De identidade ainda não divulgada, o “Diário do Norte” sabe, por intermédio da GNR, que o corpo foi cortado em três partes tenho a vitima sofrido de abuso sexual antes da morte. (Luís, Diário do Norte)
26 de Agosto
Em situação idêntica à morte do dia 26 de Agosto, Joana Aguiar, 26 anos, foi encontrada morta num armazém abandonado às portas de Lisboa, com o corpo dividido em três partes. Foi vítima de abuso sexual antes da morte. Fica por esclarecer algum tipo de ligação com o homicídio do mês passado. (Luís, Diário do Norte)
26 de Setembro
Outra vez no dia 26, outra vez uma mulher violada e cortada em três partes. Desta vez de Braga, Manuela Abrantes, 28 anos foi encontrada num terreno baldio. A PJ está a analisar as parecenças entre os três crimes. (Luís, Diário do Norte)
26 de Outubro
É oficial, com a morte de mais uma jovem, Ana Silva de 26 anos, no seu apartamento em Viana do Castelo, abusada sexualmente e dividida em três, a PJ declara que está a decorrer uma intensa operação de “caça” ao possível assassino das quatro jovens. Todas dia 26. Todas entre os 25 e os 29 anos. Todas a tirar mestrado em Bioquímica. Todas naturais do Porto. Mais informações na próxima edição. (Luís, Diário do Norte)
… Foi com estas noticias que o país mergulhou numa intensa discussão pública sobre o Serial Killer do dia 26. Com efeito, a PJ do Porto já havia montado a caça ao homem e em todas as edições o jornalista “Luís” do Diário do Norte trazia informações e detalhes sobre o caso. Para Manuel Madeiro, chefe da investigação, a situação era exigente:
“A Polícia Judiciária, em colaboração com as demais entidades, colocou os seus mais experientes quadros na investigação. Depois de quatro brutais mortes, a PJ tudo fará para que nem mais uma mulher seja morta no dia 26 e esperamos nos próximos dias encontrar e prender o responsável por tão bárbaros actos”
Após a radia e sucinta conferência de imprensa, Mário e os outros inspectores reúnem-se:
- A situação é séria e exige muito de nós. Temos neste momento quatro pistas que nos levam a três suspeitos fortes. Tiago, tu és responsável pelo professor. João, tu pelo empresário. E tu Pedro pelo velho. Ao trabalho…!
Suspeitos:
Um professor da UP e antigo professor das quatro jovens conhecido pelo seu tique para com estudantes mais novas e pelos fracassos matrimoniais. Um lenço e uma caneta estão na origem das suspeitas.
Um empresário, gerente da empresa onde as quatro jovens foram pedir emprego. Um porta chaves está na origem da suspeita.
O velho é um homem dos seus quarenta, mas com ar muito gasto. Todas as jovens faziam referências ou em Diários, ou em emails ou em conversas, às suas tentativas de abordagem sexual.
…….
Sem saber como nem porque a edição de 15 de Novembro do Jornal do Norte revelava a existência de três suspeitos. E nas edições de 16, 17, 18, 19 e 20 revelou muitos mais pormenores do caso: a folha de papel com poesia; a cruz riscada dos braços; As semelhanças profissionais entre elas; O batom; A posição como o assassino colocava o corpo. A PJ interrogava-se sem seria o bufo da investigação… O Diário do Norte esgotara as vendas nessas edições perante a inércia em que a PJ se encontrava. Faltavam quatro dias e nenhuma prova era evidentemente consistente para prender quem quer que fosse.
No dia 26, Manuel Madeiro passa a noite na PJ, não tinha conseguido cumprir a sua responsabilidade… A não ser que a direcção da investigação estivesse errada. Um maço fumou, e um maço de evidências encontrou. Às 7h30 saiu da sede da PJ com dois companheiros para a sede do Diário do Norte. Precisavam de encontrar o jornalista “Luís” urgentemente, algo não batia certo. Quando entraram no Jornal deram de caras com as primeiras impressões da edição do dia:
“Diário do Norte de luto”
Afonso Nave, conceituado jornalista, que escrevia como “Luís”, que divulgou todos os pormenores do caso do Serial Killer do dia 26 suicidou-se esta madrugada em Braga deixando uma carta de agradecimento e despedida. A carta está dividida em três partes. Na primeira agradece aos leitores das suas notícias. Na segunda despede-se da sua alegria de viver, o jornalismo criminal. Na terceira pede desculpa pelos danos colaterais e os efeitos secundários das suas noticias…
Uma mulher de 25 anos foi encontrada morta nos arredores do Porto. De identidade ainda não divulgada, o “Diário do Norte” sabe, por intermédio da GNR, que o corpo foi cortado em três partes tenho a vitima sofrido de abuso sexual antes da morte. (Luís, Diário do Norte)
26 de Agosto
Em situação idêntica à morte do dia 26 de Agosto, Joana Aguiar, 26 anos, foi encontrada morta num armazém abandonado às portas de Lisboa, com o corpo dividido em três partes. Foi vítima de abuso sexual antes da morte. Fica por esclarecer algum tipo de ligação com o homicídio do mês passado. (Luís, Diário do Norte)
26 de Setembro
Outra vez no dia 26, outra vez uma mulher violada e cortada em três partes. Desta vez de Braga, Manuela Abrantes, 28 anos foi encontrada num terreno baldio. A PJ está a analisar as parecenças entre os três crimes. (Luís, Diário do Norte)
26 de Outubro
É oficial, com a morte de mais uma jovem, Ana Silva de 26 anos, no seu apartamento em Viana do Castelo, abusada sexualmente e dividida em três, a PJ declara que está a decorrer uma intensa operação de “caça” ao possível assassino das quatro jovens. Todas dia 26. Todas entre os 25 e os 29 anos. Todas a tirar mestrado em Bioquímica. Todas naturais do Porto. Mais informações na próxima edição. (Luís, Diário do Norte)
… Foi com estas noticias que o país mergulhou numa intensa discussão pública sobre o Serial Killer do dia 26. Com efeito, a PJ do Porto já havia montado a caça ao homem e em todas as edições o jornalista “Luís” do Diário do Norte trazia informações e detalhes sobre o caso. Para Manuel Madeiro, chefe da investigação, a situação era exigente:
“A Polícia Judiciária, em colaboração com as demais entidades, colocou os seus mais experientes quadros na investigação. Depois de quatro brutais mortes, a PJ tudo fará para que nem mais uma mulher seja morta no dia 26 e esperamos nos próximos dias encontrar e prender o responsável por tão bárbaros actos”
Após a radia e sucinta conferência de imprensa, Mário e os outros inspectores reúnem-se:
- A situação é séria e exige muito de nós. Temos neste momento quatro pistas que nos levam a três suspeitos fortes. Tiago, tu és responsável pelo professor. João, tu pelo empresário. E tu Pedro pelo velho. Ao trabalho…!
Suspeitos:
Um professor da UP e antigo professor das quatro jovens conhecido pelo seu tique para com estudantes mais novas e pelos fracassos matrimoniais. Um lenço e uma caneta estão na origem das suspeitas.
Um empresário, gerente da empresa onde as quatro jovens foram pedir emprego. Um porta chaves está na origem da suspeita.
O velho é um homem dos seus quarenta, mas com ar muito gasto. Todas as jovens faziam referências ou em Diários, ou em emails ou em conversas, às suas tentativas de abordagem sexual.
…….
Sem saber como nem porque a edição de 15 de Novembro do Jornal do Norte revelava a existência de três suspeitos. E nas edições de 16, 17, 18, 19 e 20 revelou muitos mais pormenores do caso: a folha de papel com poesia; a cruz riscada dos braços; As semelhanças profissionais entre elas; O batom; A posição como o assassino colocava o corpo. A PJ interrogava-se sem seria o bufo da investigação… O Diário do Norte esgotara as vendas nessas edições perante a inércia em que a PJ se encontrava. Faltavam quatro dias e nenhuma prova era evidentemente consistente para prender quem quer que fosse.
No dia 26, Manuel Madeiro passa a noite na PJ, não tinha conseguido cumprir a sua responsabilidade… A não ser que a direcção da investigação estivesse errada. Um maço fumou, e um maço de evidências encontrou. Às 7h30 saiu da sede da PJ com dois companheiros para a sede do Diário do Norte. Precisavam de encontrar o jornalista “Luís” urgentemente, algo não batia certo. Quando entraram no Jornal deram de caras com as primeiras impressões da edição do dia:
“Diário do Norte de luto”
Afonso Nave, conceituado jornalista, que escrevia como “Luís”, que divulgou todos os pormenores do caso do Serial Killer do dia 26 suicidou-se esta madrugada em Braga deixando uma carta de agradecimento e despedida. A carta está dividida em três partes. Na primeira agradece aos leitores das suas notícias. Na segunda despede-se da sua alegria de viver, o jornalismo criminal. Na terceira pede desculpa pelos danos colaterais e os efeitos secundários das suas noticias…
Semana:
Crime
Crónica de uma liberdade
Os corredores são estes onde estou, com paredes caiadas a branco. Por aqui passamos eu e o tempo. A luz dos dias que entra, a falta dela à noite, quando eu, paciente número 2039, penso que não durmo. Por estes corredores, números sentados ou a andar, para trás e para diante, cada um consigo próprio, vazio mesmo assim. Talvez caminhem a par com o eco que os chinelos produzem. Talvez nem lutem contra o tempo. Os que já desistiram sentaram-se e aí ficam até que voltem para o buraco.
No pequeno varandim que rodeia o edifício sinto na cara o ar fresco da manhã, os olhos quase fechados porque o Sol obriga. A vista que se tem daqui é uma sobreposição de camadas. O jardim verde, os muros altos e escuros adiante e ao fundo a montanha, que a neblina deixa perceber. Creio estar a conseguir cheirar o sal do mar, que o muro encobriu quando os senhores de branco me encaminharam para cá. Ajudaram-me. Já consigo sentir o que está para lá disto. A menos que façam alguma coisa, não me tiram isto da cabeça. Façam o que fizerem, não me tiram nada.
Tiraram-me este lugar. Hoje, agora. Estás curado, podes ir.
As pessoas olham-me, na vila. Não evitam. Uns por pena, outros porque os incomodo. A roupa que trago é a mesma que tinha no corpo antes de andar com números nas costas. Aqui sinto a praia perto de mim, de novo. Os pescadores lá ao fundo não me deixam mentir.
Adormeço junto ao mar sem dar conta. Acordo com sirenes e luzes. É cedo ainda, pois começam a chegar os primeiros barcos de pesca ao cais, sobrevoados pelas gaivotas. Afasto-me rapidamente, com medo do que seja. Enquanto corro num sentido, mil outros correm no sentido inverso, em direcção à praia. Falam em tiros e morte.
E disso se falou nos dias seguintes. Sozinho, ao balcão de um café, oiço atento o pouco que se comentava. Entrando a polícia, as memórias dos que sabem alguma coisa apagam-se. Desde aí, estou debaixo de olho. Sou novo aqui.
O mar, que lá ao fundo afunda, mergulha no redondo. A praia que afunda neste mar. Quase ninguém. Um polícia a olhar em volta. Uma mulher que traz algo na mão, a andar, em direcção ao polícia. As ondas aqui aos meus pés. O pulsar deste mar. A maré que sobe. Deixo-me envolver, embalado pelos sons. Sirenes, duas mãos nos meus ombros, muito rápido. Tenho o direito a permanecer calado e tudo o que disser é usado contra mim. Levam-me para uma sala e eu calado. Contam-me o que eu já começava a perceber em relação aos tiros e à morte. Falam muito em mim e na praia. Encarceram-me numa cela. Depois um corredor negro, com uma porta de ferro ao fundo e uma luz vermelha em cima.
Que corredor é este?
.
Semana:
Crime
quarta-feira, 2 de junho de 2010
A Queda do Império Romano
Segunda-feira
Fui chamado de manhã para um corpo baleado na praia. Onze vezes. Calibre 9mm. Um bando de abutres sobrevoava o cadáver na areia envolto por algas e espuma das ondas. Uma chamada anónima ao nascer do dia deu conta da ocorrência.
À tarde, fui falar com os pescadores nas rochas mas não sabiam de nada. Mostrei-lhes fotografias do corpo mas isso não pareceu impressioná-los. Os homens que estavam nas docas a descarregar os contentores de um barco disseram que quando chegaram a polícia já lá estava. Quando eu saí, às oito da noite, o corpo ainda não tinha sido identificado.
Terça-feira
Procurei no arquivo pelo registo de casos semelhantes e encontrei referências à praia em pelo menos uma dezena de documentos. Homicídios. Até hoje, cinco homens, quatro mulheres, uma das quais grávida, e uma criança. Nenhum dos casos foi solucionado.
À tarde, fui falar com o médico legista no hospital e, de resto, pouco mais pude fazer. Vim mais cedo para casa e passei o serão a escrever, enquanto a minha mulher vê televisão deitada no sofá.
Quarta-feira
Tinha um relatório à minha espera na secretária quando cheguei. As buscas realizadas no dia anterior não tinham conseguido nada melhor que uma caixa de fósforos a poucos metros do corpo, enterrada na areia. Era uma daquelas amostras de publicidade, tinha o endereço de um estabelecimento nocturno no centro da cidade. Eram três da tarde. Esperei até à meia-noite.
Entrei. Perguntei à empregada no balcão se conhecia o indivíduo na fotografia que lhe mostrei. Disse que não mas vi que estava a mentir. De seguida, falei com o seu superior, a quem pedi a gravação das câmaras de vigilância de domingo à noite. Levou-me a uma sala e meteu uma cassete no aparelho. Eram imagens de arquivo de um programa de televisão de há 30 anos. Pelo seu olhar percebia-se que também era a primeira vez que via aquela cassete. Perguntei-lhe quem tinha acesso àquela sala. Qualquer pessoa, à noite é difícil controlar o movimento, qualquer pessoa que saiba o que procura consegue entrar.
São cinco da manhã. Cheguei agora a casa e encontrei a minha mulher a dormir no sofá. A televisão ainda está ligada enquanto escrevo. Um documentário sobre o império romano. Estou cansado, mas sou capaz de ficar mais um pouco acordado para saber como acaba.
Quinta-feira
De manhã, nada a apontar. O meu trabalho esteve limitado à falta de evidências.
À tarde, uma senhora de idade veio à esquadra reportar o desaparecimento do filho. Mandaram-na vir ter comigo. Não chorou. Reagiu como se estivesse à espera. Mais nada. Trouxe para casa o relatório com as informações da vítima. A mãe desconhecia grande parte da vida do filho. De qualquer forma, vou ler isto depois da segunda parte do programa sobre Roma.
Sexta-feira
Despertei de um pesadelo às seis da manhã. Cheguei à praia com uma cana de pesca e era trinta anos mais velho. Aproximei-me do morto, que abriu os olhos e perguntou-me quem eu era. Disse que estava a investigar a sua morte. Mas eu não morri, respondeu com sinceridade. Ajoelhei-me perto do seu corpo e passei os dedos pelos buracos de onde escorria sangue, para lhe mostrar, mas depois tive pena dele. Não sei o que aconteceria a seguir porque acordei.
Falei com os vizinhos, colegas de trabalho, família. Nada. No geral, todos disseram que era uma pessoa solitária. Não acredito. Não encontrei ninguém que o conhecesse melhor. Não acredito. Agora que morreu podem dizer o que quiserem dele, por isso não acredito. Mencionei, também, o nome das restantes vítimas, dos outros casos da praia. Nada. Até segunda, não me preocupo mais com isso.
Sábado
Não consigo parar de pensar no caso. Nem tinha reparado. Só quando, ao jantar, a minha mulher perguntou o que se passa? é que me apercebi que não conseguia parar de pensar nisso. Todos sabem. Os pescadores, os vizinhos, os da discoteca, os da fábrica onde trabalha, todos sabem. Há algo que me escapa. Não faço a menor ideia.
Vou dormir, disse a minha mulher, interrompendo-me o pensamento. Já? Olhei para o relógio. 01h43. Ainda pensei em dizer alguma coisa, mas como pedir desculpa? Morreu um homem. Qualquer vida é mais importante que tudo o resto, mas isso nem a mim me convenceu. Entretanto, já se tinha ido deitar e eu estava sozinho na sala, à frente da televisão. Imagens. De quê? (Tenho quase a certeza que se ela não tivesse falado, eu chegaria lá. Onde?)
Domingo
O dia inteiro perdido. Inútil e absurdo são as palavras que me vêm à mente. Vazio. Mesmo assim, prefiro Hoje que Amanhã. Para sempre domingo. Talvez a resposta esteja na praia. Veremos.
Disparos
aproxima-se alg
estou a cair e
.
Fui chamado de manhã para um corpo baleado na praia. Onze vezes. Calibre 9mm. Um bando de abutres sobrevoava o cadáver na areia envolto por algas e espuma das ondas. Uma chamada anónima ao nascer do dia deu conta da ocorrência.
À tarde, fui falar com os pescadores nas rochas mas não sabiam de nada. Mostrei-lhes fotografias do corpo mas isso não pareceu impressioná-los. Os homens que estavam nas docas a descarregar os contentores de um barco disseram que quando chegaram a polícia já lá estava. Quando eu saí, às oito da noite, o corpo ainda não tinha sido identificado.
Terça-feira
Procurei no arquivo pelo registo de casos semelhantes e encontrei referências à praia em pelo menos uma dezena de documentos. Homicídios. Até hoje, cinco homens, quatro mulheres, uma das quais grávida, e uma criança. Nenhum dos casos foi solucionado.
À tarde, fui falar com o médico legista no hospital e, de resto, pouco mais pude fazer. Vim mais cedo para casa e passei o serão a escrever, enquanto a minha mulher vê televisão deitada no sofá.
Quarta-feira
Tinha um relatório à minha espera na secretária quando cheguei. As buscas realizadas no dia anterior não tinham conseguido nada melhor que uma caixa de fósforos a poucos metros do corpo, enterrada na areia. Era uma daquelas amostras de publicidade, tinha o endereço de um estabelecimento nocturno no centro da cidade. Eram três da tarde. Esperei até à meia-noite.
Entrei. Perguntei à empregada no balcão se conhecia o indivíduo na fotografia que lhe mostrei. Disse que não mas vi que estava a mentir. De seguida, falei com o seu superior, a quem pedi a gravação das câmaras de vigilância de domingo à noite. Levou-me a uma sala e meteu uma cassete no aparelho. Eram imagens de arquivo de um programa de televisão de há 30 anos. Pelo seu olhar percebia-se que também era a primeira vez que via aquela cassete. Perguntei-lhe quem tinha acesso àquela sala. Qualquer pessoa, à noite é difícil controlar o movimento, qualquer pessoa que saiba o que procura consegue entrar.
São cinco da manhã. Cheguei agora a casa e encontrei a minha mulher a dormir no sofá. A televisão ainda está ligada enquanto escrevo. Um documentário sobre o império romano. Estou cansado, mas sou capaz de ficar mais um pouco acordado para saber como acaba.
Quinta-feira
De manhã, nada a apontar. O meu trabalho esteve limitado à falta de evidências.
À tarde, uma senhora de idade veio à esquadra reportar o desaparecimento do filho. Mandaram-na vir ter comigo. Não chorou. Reagiu como se estivesse à espera. Mais nada. Trouxe para casa o relatório com as informações da vítima. A mãe desconhecia grande parte da vida do filho. De qualquer forma, vou ler isto depois da segunda parte do programa sobre Roma.
Sexta-feira
Despertei de um pesadelo às seis da manhã. Cheguei à praia com uma cana de pesca e era trinta anos mais velho. Aproximei-me do morto, que abriu os olhos e perguntou-me quem eu era. Disse que estava a investigar a sua morte. Mas eu não morri, respondeu com sinceridade. Ajoelhei-me perto do seu corpo e passei os dedos pelos buracos de onde escorria sangue, para lhe mostrar, mas depois tive pena dele. Não sei o que aconteceria a seguir porque acordei.
Falei com os vizinhos, colegas de trabalho, família. Nada. No geral, todos disseram que era uma pessoa solitária. Não acredito. Não encontrei ninguém que o conhecesse melhor. Não acredito. Agora que morreu podem dizer o que quiserem dele, por isso não acredito. Mencionei, também, o nome das restantes vítimas, dos outros casos da praia. Nada. Até segunda, não me preocupo mais com isso.
Sábado
Não consigo parar de pensar no caso. Nem tinha reparado. Só quando, ao jantar, a minha mulher perguntou o que se passa? é que me apercebi que não conseguia parar de pensar nisso. Todos sabem. Os pescadores, os vizinhos, os da discoteca, os da fábrica onde trabalha, todos sabem. Há algo que me escapa. Não faço a menor ideia.
Vou dormir, disse a minha mulher, interrompendo-me o pensamento. Já? Olhei para o relógio. 01h43. Ainda pensei em dizer alguma coisa, mas como pedir desculpa? Morreu um homem. Qualquer vida é mais importante que tudo o resto, mas isso nem a mim me convenceu. Entretanto, já se tinha ido deitar e eu estava sozinho na sala, à frente da televisão. Imagens. De quê? (Tenho quase a certeza que se ela não tivesse falado, eu chegaria lá. Onde?)
Domingo
O dia inteiro perdido. Inútil e absurdo são as palavras que me vêm à mente. Vazio. Mesmo assim, prefiro Hoje que Amanhã. Para sempre domingo. Talvez a resposta esteja na praia. Veremos.
Disparos
aproxima-se alg
estou a cair e
.
Semana:
Crime
Subscrever:
Mensagens (Atom)