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sexta-feira, 11 de junho de 2010

"Olha fica na tua que eu fico na minha!"

O jantar tinha corrido razoavelmente bem. Bom vinho, comida bem apurada, e conversas que não foram para além do que é mais ou menos unânime. O pior foi depois do jantar. Sentados, nos dois sofás da sala, tinham acabado de ligar a RTP N: “Assembleia da República aprova o plano de austeridade”. Bebiam café, ao lado tinham dois copos de whisky, ambos com duas pedras:

- É sempre a mesma merda, nós é que nos lixamos sempre! É uma vergonha! São todos uns ladrões a aproveitarem-se de nós!, exalta-se Rui numa espécie de monólogo.
- Temos que fazer sacrifícios Rui…

- Não me venhas com as tuas teorias João. De que o país anda mal e que esta porra é inevitável. Já não engulo essa há muito tempo!
- Não me venhas tu com tretas. Tu és o típico Português que só reclama e reclama mas que não faz nada. Isto é um esforço patriótico. Não há alternativa.

- Não há alternativa? Então mas que culpa é que eu tenho que durante anos a classe política tenha deixado o País chegar a este ponto? Que culpa é que eu tenho que o país esteja neste caos?
- Temos todos. Temos todos responsabilidades, e por isso mesmo temos todos de fazer um esforço colectivo para dar um rumo ao país.

- Qual esforço colectivo, qual quê!! Esses corruptos, gestores, milionários estão sempre bem, para eles nunca há crise, quem se fode é sempre o povo, quem trabalha!
- Pronto, lá vêm os teus tiques comunistas. Deixa-te desses chavões Rui, isso já acabou. E esses gestores e milionários dão um contributo imenso para a economia. Se quiseres metemos os patrões todos no Campo Pequeno e metemos lá uma bomba, como queriam alguns no PREC, depois vamos ver quem é que dá emprego em Portugal!!

- O problema é que essa cangalhada toda pode fazer o que lhe apetece porque tem sempre as costas quentes com esse pseudo contributo para a economia. Mas que contributo é que esses burgueses dão ao país? Salários de miséria, precariedade, desemprego, exploração, desigualdades. Não têm responsabilidade nenhuma…
- Pronto tudo bem, então implementamos legislação toda pró social para ajudar os pobrezinhos e depois é ver os investidores fugir. És mesmo um burro utópico.

- E tu um burro conivente com a exploração dos outros.
- Não é exploração é desenvolvimento económico!
- Mas tu já olhas-te para o Mundo? Isto está roto por todo o lado, o sistema está completamente podre e estes PEC´S 1 e 2, mais a merda do plano de austeridade, só servem para nos meterem a mão no bolso e taparem os buracos que criam, ao taparem os buracos que esses porcos capitalistas criaram.

- És mesmo um comunista ignorante!!!!
- És mesmo um capitalista merdoso!!!!!!

- Olha fica na tua que eu fico na minha !
- Luisa, vamos embora!!!!!!!!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Verdade dolorosa

Voltava a casa depois de mais um dia difícil no hospital. Vivia sozinho, divorciou-se há quase quatro anos e estava bem assim. Tinha um filho adolescente que de quinze em quinze dias o vinha visitar. O trabalho era tudo para ele, sentia-se realizado e não tinha objectivos concretos de formar família, já o tinha feito e não se tinha saído muito bem.

O despertador tocou às 07:45h e interrompeu-lhe o sono. Esfregou os olhos e espreguiçou-se. Foi directo à cozinha, barrou manteiga num pão e bebeu um copo de leite frio em três goladas. Tomou um duche rápido, vestiu o fato que a empregada tinha engomado no dia anterior e pôs uma gravata azul listada de amarelo. Os sapatos engraxados brilhavam à luz do sol. Antes de sair passou pelo escritório e recolheu a pasta de couro, dando um jeito na fivela mal encaixada.
Eram 09:02h quando chegou ao hospital. Passou pela recepção e com um aceno cumprimentou a Dona Teresa, que de óculos no nariz retribuiu com um sorriso dócil. No gabinete estava já à sua espera um garoto negro com ar cansado e abatido e a sua mãe, cabisbaixa e inquieta. Chegou perto do miúdo e perguntou: “Como te chamas?”- respondeu num tom de voz fraco: “Miguel”.

-“E que te dói, Miguel?”

-“A cabeça. Dói muito.”

Miguel tinha 6 anos e a mãe deu o resto das informações ao médico. Disse que hà uns tempos que ele se queixava de dores de cabeça, não eram muito fortes mas constantes. Mostrou-se também preocupado porque a criança tinha alguma sensibilidade à luz. Perante este panorama, o termo aneurisma foi inundando o pensamento do Dr. Pedro. Recostou-se na cadeira e tomou uns apontamentos numa folha branca onde estavam os dados de Miguel.

Mandou fazer uns exames para ter a certeza. Não queria por nada deste mundo que o seu diagnóstico estivesse correcto. Era só uma criança indefesa, ainda sem maldade com tanta vida pela frente. Sim, era um aneurisma, de primeiro grau. Tinha oitenta por cento de hipótese de sobreviver. Não era médico há muitos anos, nunca tinha passado por situação semelhante. Num flashback inoportuno, viu a imagem de um dos professores da Faculdade de Medicina explicar que um aneurisma cerebral era basicamente um vaso sanguíneo anormalmente dilatado no cérebro que se rompesse provocaria danos ao nível da respiração, originando morte por paragem respiratória.

Não ia ser fácil dizer à mãe o que podia acontecer. Chorou durante minutos, estava desesperada e implorou-lhe que lhe salvasse o filho.
Uma semana depois, Miguel entrou para a sala de operações com a mesma expressão no rosto. Adormeceu vítima da anestesia e momentos depois foi a vez de o médico entrar. Não tinha dormido nada, aliás, não passava uma noite em condições desde o dia em que tinha visto o garoto. Era a sua quinta operação e nenhuma das anteriores exigia metade do cuidado desta. Lavou as mãos e os braços, estava pronto, pelo menos aparentava estar. Era uma intervenção de risco, uma craniotomia. O objectivo era colocar em redor do vaso sanguíneo uma espécie de clipe de titânio a fim de evitar que o aneurisma rompa. A enfermeira esterilizou todo o equipamento e a operação teve inicio. Começaram por fazer um corte no crânio, abrindo-o cautelosamente. As pingas de suor escorriam-lhe pela testa e a voz inquietante da mãe a pedir que lhe salvasse o filho, era aterradora. Percebeu que não estava preparado, mas não podia voltar atrás. Tinha que tomar as rédeas e ser ele o comandante do navio. Pegou nas pinças, a firmeza praticamente inexistente. Recuou, baixou os braços, olhou para os colegas e disse:

“Porra, eu não consigo fazer isto. Não consigo.” – Quem estava do seu lado esquerdo, pôs-lhe a mão no ombro, aproximou-se e respondeu: “Só tu podes fazer isto, tens que ser tu! Vais conseguir, o miúdo vai sair daqui bem.”

Avançou de novo. A pressão apoderou-se de todos os seus músculos, não ia ser capaz. Aplicou o primeiro clipe com sucesso, mas curiosamente não se sentiu confiante. Ao segundo, as mãos tremiam muito, tinha a sensação que aquela operação estava destinada a ser um fracasso. Então, a pinça rasgou o aneurisma. Com compressas toda a gente tentou parar a hemorragia, era tarde de mais. O coração do pequeno Miguel não resistiu. Nem mesmo a força da juventude foi mais forte do que o problema. Perplexo, olhou o relógio da sala. Hora do óbito: 17:36h.

Saiu apressado, passou pela mãe que esperava ansiosa por notícias e com um sorriso falso disse que voltaria para falar com ela. Tirou a bata, deu um pontapé na secretária e um soco na parede. A mão ferida sangrava, mas o sangue que ele via era o de Miguel, não estava minimamente preocupado com a mão, não lhe doía, nem sequer a sentia. Perdeu o seu segundo paciente, para ele era o primeiro. O outro, era um velho que não conseguiu curar de um cancro. Dessa vez não pesou tanto. Como se ver alguém morrer-lhe nos braços não fosse suficiente, faltava ainda dizer à mãe que tinha perdido o seu bem mais precioso.

Aproximou-se, pegou-lhe na mão e disse: “Custa muito dizer-lhe isto. O Miguel estava com uma hemorragia interna quando veio cá da primeira vez, provavelmente caiu na escola, bateu com a cabeça e aconteceu. Os sintomas levavam a crer que seria um aneurisma, mas no decorrer da operação e assim que iniciámos a craniotomia tornou-se claro que não era de um aneurisma que se tratava, era uma hemorragia interna que poderia ter sido tratada se tivesse vindo mais cedo.” Cada palavra que cuspia queimava-lhe a língua. A cada frase concluída, uma facada atingia-o no coração. Era culpado da morte da criança, mas só ele e quem estava naquela sala, sabia disso. A imagem do hospital não podia ser manchada, a dele muito menos.

A mulher debruçou-se sobre o corpo vazio do filho e chorou.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Soalho

À sua frente, à espera de inspiração. Não lhe virava as costas, embora algo dentro de si lhe sussurrasse um Desiste. Uma tela sentada num cavalete, pacientemente à espera de inspiração. Branca, sem cor, ainda que lá as tenha todas, sobrepostas, mas reflectidas e, portanto, ausentes. Um homem que procura as cores e não encontra, ainda. O amigo que passa, na rua lá em baixo – vê-o pela janela e acena-lhe – e ele com o pincel sem cor, de volta ao quadro. O chão em madeira antiga, coberto de pó. As fendas deixam passar a luz e até mais. O homem ajoelha-se, pesado da idade, levando os olhos pequenos às frinchas, aproximando-se o mais que pode, espreitando o andar inferior. Vê os pratos na mesa, prontos para o almoço. 

Passado um pouco, as pessoas à mesa. Vistas de cima são bolas pretas ou loiras, conforme o cabelo, e as mãozinhas rápidas com os garfos e as facas, como as formigas com o que apanham do chão. Com esforço, o homem puxa a tela para si, decidido a retratar aquilo que para ele é tão real no momento, mais do que o amigo que passa na rua a acenar. Teme fazer notar-se com tanta agitação. As cores não precisam de ser muitas, desde que as use bem, Bastam três, pensa. 

Enquanto se prepara para finalmente começar, ouve o rádio baixinho anunciar um eclipse solar total para esse dia, fenómeno observável durante a tarde naquele ponto do globo que gira, gira, gira. 

Na verdade, naquela família algo de invulgar fazia brilhar o olho ao artista. Tal colava-o ainda mais ao soalho. As crianças barulhentas, os pais severos, impondo respeito. As pinceladas fortes e rápidas, ao ritmo da música descarrilada que os pratos emanam. O homem num estrabismo desmedido, com um olho no andar de baixo e outro na tela. A certa altura faz uma pausa e constata que as crianças saem, com aquela pressa que só elas têm, umas atrás das outras, livres da mesa. Ouve atentamente a conversa, afinal não são os pais, mas que interessa? O quadro é dele. Continua a retocar com alguma cor o barulho que as crianças faziam com o talher, esforçando a memória, puxando pelas texturas e pelas formas de modo que o que fique seja o que ele quiser que seja visto e não necessariamente o que ele observa. 

E o tempo passa aqui e passa nas órbitas lá de cima, que não são excepção pois a lua anda e o Sol também e depois a luz cruza-se e parece que pára mesmo em frente ao Sol e o cumprimenta com um Olá como estás?. E nisto não se vê nada cá em baixo, no globo que gira, gira, gira. 

O homem incomodado por não ver levanta-se, senta a tela no cavalete, senta-se ele também no banco pequeno e quase que não há luz ali, não há brancos: há escuros e negros. Fita o quadro com severidade, rindo-se depois com o caricato daquele impasse. Está farto de saber. Há dois séculos que o sabe. É sempre preciso estragar um pouco o quadro para o poder terminar. 
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Fuso horário

I think I should speak now
I can't seem to speak now
My words won't come out right
I feel like I'm drowning
I'm feeling weak now
But I can't show my weakness
I sometimes wonder
Where do we go from here

FADE IN:
INT.DIA
No terminal de aeroporto de uma grande cidade (Nova Iorque, Londres, Tóquio, Paris, Viena, Milão, Rio de Janeiro, Madrid, Moscovo, Buenos Aires, Los Angeles, Pequim, Chicago, Lisboa); vozes que anunciam as chegadas; centenas de pessoas, sentadas, com malas, com sacos de compras, funcionários do aeroporto, das companhias aéreas, passageiros.
GRANDE PLANO SOBRE A MULTIDÃO NO TERMINAL. ZOOM IN. UM HOMEM QUE ACABA DE CHEGAR À CIDADE TOCA NO OMBRO DE OUTRO QUE ESTÁ À SUA ESPERA NO AEROPORTO.
- Já estás há muito tempo à espera?
- Há pouco mais de uma hora.
- O voo atrasou-se à saída.
- Correu tudo bem?
- Sim. Foi tranquilo. Dormi umas boas horas, o que não costuma acontecer.
- Queres que leve uma?
- Não é preciso. Não as trago muito pesadas.
- Por aqui.
- Deixei lá muita tralha. Tudo o que já não preciso.
- Deixei o carro deste lado.
- Em que hotel ficaste?
- Não fiquei. Fiz a viagem de noite.
- Ansioso demais para dormir?
- Quase... (ri-se) para evitar o trânsito.
- Deves estar cansado...
- Um pouco, mas já tomei uns quatro cafés.
- Em uma hora? (ri-se) Deixa ver a chave que eu levo o carro.
ENTRAM NO CARRO. INTERIOR DO CARRO.
- Mete a pasta aí atrás.
- Então...
- O quê?
- Diz lá...
- O que é que queres saber?
- Disseste há bocado que não dormias tão bem há anos...
O OUTRO RI-SE. O CARRO ESTÁ A ENTRAR NA AUTO-ESTRADA.
- Não tem nada a ver com isto. Não dormia assim em aviões, era o que queria dizer.
- Talvez inconscientemente...
- Não me parece.
O OUTRO OLHA PARA ELE À ESPERA DE UMA RESPOSTA.
- Não há nada que saber. Foi tudo como eu estava à espera.
- E o que fizeste quando soubeste?
O QUE ESTÁ A CONDUZIR FECHA OS OLHOS E ACELERA.
- Fiz o que tinha de fazer...
- Só uma pergunta... agora que já sabes o que aconteceu...
- O quê? Fazia o quê?
- Preferias não ter ido?
O HOMEM QUE ESTÁ A CONDUZIR OLHA PELA JANELA E FICA EM SILÊNCIO POR UM MOMENTO.
- Não consigo pensar dessa maneira. Se não soubesse, nada disto teria acontecido. Continuava a viver da mesma maneira.
- E isso seria melhor ou pior?
- Eu sei que tu queres que eu diga que sim, que seria melhor mas... mas estaria a viver uma ilusão.
- Então? Preferias?
- Não me arrependo. Se estivesses no meu lugar, não farias o mesmo?
FICAM EM SILÊNCIO DURANTE ALGUNS MINUTOS. O QUE ESTÁ NO LUGAR DO MORTO BOCEJA.
- E agora? O que vais fazer?
- Não sei.
- Vai mudar alguma coisa?
- Talvez. Agora, pelo menos, não tenho desculpas para não tentar.
- O quê?
- Ainda não sei.
- Qualquer coisa, podes contar comigo. Comigo e com os outros.
- Ninguém me pode ajudar agora. Pelo menos, por enquanto. Só o tempo.
- E o que vai acontecer depois? Quando esqueceres o que se passou?
- Não sei. Ainda não sei. Porquê tantas perguntas? Tens medo que eu faça alguma coisa?
- Claro que não, mas é normal uma pessoa sentir-se culpada depois do que aconteceu. É difícil lidar com isso. Muitos não conseguem.
- Podes ficar descansado. Agora tenho mais motivos para não ter essas ideias. Podes dizer aos outros para não se preocuparem comigo. Não precisam de me tratar de maneira diferente.
- Há qualquer coisa que mudou. Eu vejo nos teus olhos.
- É claro que mudou. Eu mudei. Para te ser sincero, rezei durante muito tempo para que alguma coisa acontecesse. Nunca soube bem o quê. Agora vejo que isto pode bem servir.
- Servir? Do que estás a falar?
- Para mudar alguma coisa. Isto pode mesmo ter o seu lado bom. Pode indicar-me algum caminho. Não dá para explicar. Estive muito tempo à espera que alguma coisa mudasse, para que eu pudesse também mudar. Seguir um caminho diferente. Sei lá. É claro que não te consigo dizer o que vai acontecer a seguir. Não depende só de mim. Mas eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para não me deixar levar. Eu tenho quarenta anos, caraças, não me vou deixar apagar pela idade. É a altura certa para me impor. Imagina que agora tínhamos um acidente e eu ia parar ao hospital, e conhecia a pessoa certa para mim e éramos felizes para sempre. Não podes dizer que é impossível. Ninguém sabe o que vai acontecer, não achas?
O HOMEM QUE ESTÁ A CONDUZIR OLHA PARA O OUTRO E, AO VER QUE JÁ ESTÁ A DORMIR, RI-SE.
- Sortudo. Temos uma longa viagem pela frente. Não te preocupes. Vai ficar tudo bem. É hora de virar a página. Começar de novo. Ninguém sabe o que pode acontecer agora.
FADE OUT.
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